"Vi minha vida se desenrolar diante de mim
como uma figueira de um conto que havia lido. Da ponta de cada ramo, um
gordo figo roxo acenava e me seduzia com um futuro maravilhoso. Um
figo significava um marido e um lar feliz com filhos, outro
era uma poetisa famosa, outro uma professora, outro era Esther
Greenwood, a surpreendente editora, outro era a Europa, a África e a
América do Sul, outro Constantin e Sócrates e Átila, um bando de amantes
com nomes esquisitos e profissões originais, outro ainda era uma
campeã olímpica, e acima de todos esses figos havia muitos outros que
eu não conseguia entender. Vi-me sentada sob essa figueira, morrendo de
fome, só porque não conseguia decidir qual figo escolheria. Queria-os
todos, e escolher um siginificava perder o resto. Incapaz de me
decidir, os figos começavam a murchar e apodrecer, e um a um caiam no
chão a meus pés."
A Redoma de Vidro, Sylvia Plath.
uma frase recorrente toma conta das horas, repasso o roteiro inúmeras vezes e constato o desajuste. a verdade é que não sei quando as coisas começaram a ser assim. talvez por descuido ou conveniência deixei de enumerar os fatos. olho a fotografia roubada, sinto vontades, mas não digo nada. cada minuto de silêncio assassina um pouco o que amo. agora percebe os meus olhos derretidos?
às vezes você consegue ser tão ríspido comigo e às vezes eu consigo
prever em seus olhos o que pensarás de mim amanhã. acho que não tem
como, estou perdendo a pouca crença que me resta. tenho grande medo de
um dia me tornar uma dessas mulheres amargas. mas por enquanto ainda
acredito, entre um revés e outro, mas ainda acredito. hasta que el cuerpo aguante
"meu apego é pelo que foi e não pelo que virá. o futuro ao Deus dará, você me diz. mas esquece que no amanhã tem construção e tem escolha e tem coragem. nessa neurose quixotesca eu me perco. todo
sentido vira circunstância de uma lembrança, memória ativa remoendo as
entranhas do coração. nunca tão saudosista. nunca tão melancólica no
dissabor do passado que teima em ser presente. e nessa retomada me
ancoro e afundo. o medo também persegue feito sombra. não olhar para
frente é um risco. viver exige um pouco mais."
Camila, do tetra pac inc.
queria te mostrar tanta coisa, mas ao mesmo tempo queria apenas sumir.
acho que estou comendo raiva e, como o de costume, somatizando tudo com o
mais puro desespero. dias atrás fiquei de cama, febre, delirando. não
consegui colocar pra fora. uma bola entalava e eu engasgava lentamente. foi aí que pensei de novo em você. tou
querendo arrumar a minha vida, ou quem sabe até bagunçar de vez. acho que quero
largar tudo e correr. não sei, deixar rolar. vou fazer que nem Caio: olhar os caminhos, o que tiver mais coração eu sigo. dizem que assim não
tem erro, né? o que eu não quero é chorar a ausência. já não sinto mais
nada, boy. então eu lhe pergunto, por que continuar sendo tão autodestrutiva? a verdade é que eu queria ter a coragem de perguntar como cê tá, como foi o seu dia, no que pensa, o que sente,
se come bem, essas perguntas bobas que a gente faz pra quem a gente
gosta. é que eu cansei de falar só sobre mim, pois foi nessa fala que feri
fundo de faca a quem um dia amei.
2:26.a.m: acordei
com um medo no peito. só me recordo do sonho tortuoso e a sensação de
estar presa ao corpo, mas não ter acesso aos sentidos. um segundo depois
fitei com os olhos o que não podia ver: meu quarto vazio que de tão meu
se tornara algo estranho, a tal ponto de ter certeza que dali não
conseguiria mais sair. o silêncio de dentro misturado com o silêncio de
fora. amortecida, deixei o tanto que tinha guardado transbordar, assim,
sem motivo algum. sem ter outro remédio, percebi que minha vaga
existência sempre se resumiu a simples ideia de nãoprecisardeninguém e é incrível como com o passar dos anos tudo isso começa a te perturbar, involuntariamente. nessa noite eu sentia a falta de e
mesmo assim ainda resistia em usar a palavra. nada de afeto. estiquei
meus braços sobre a cama de solteiro e senti a ausência nos lençóis.
translúcida e gelada. não sei como me deixei levar sem freios a esse
ponto. errei várias vezes nos cálculos e agora a madrugada vinha
assombrar meus sonhos. fechei os olhos e cerrei os punhos.
foda-se esse amor que não quer vir até mim". foi exatamente isso que P. quis dizer quando gritou que odiava toda aquela falta de sensibilidade. e eu sei lá o que pode significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável do ser, a real é que a gente não se doa, cara. então criamos cordialidades mais por medo que por amor. ou afinidade. ou sincronicidade. ou respeito. ou qualquer outra coisa estúpida que a gente gosta de chamar de sentimento.
Do I have an original thought in my head? My bald head. Maybe if I were happier, my hair wouldn’t be falling out. Life is short. I need to make the most of it. Today is the first day of the rest of my life. I’m a walking cliché. I really need to go to the doctor and have my leg checked. There’s something wrong. A bump. The dentist called again. I’m way overdue. If I stop putting things off, I would be happier. All I do is sit on my fat ass. If my ass wasn’t fat I would be happier. I wouldn’t have to wear these shirts with the tails out all the time. Like that’s fooling anyone. Fat ass. I should start jogging again. Five miles a day. Really do it this time. Maybe rock climbing. I need to turn my life around. What do I need to do? I need to fall in love. I need to have a girlfriend. I need to read more, improve myself. What if I learned Russian or something? Or took up an instrument? I could speak Chinese. I’d be the screenwriter who speaks Chinese and plays the oboe. That would be cool. I should get my hair cut short. Stop trying to fool myself and everyone else into thinking I have a full head of hair. How pathetic is that? Just be real. Confident. Isn’t that what women are attracted to? Men don’t have to be attractive. But that’s not true. Especially these days. Almost as much pressure on men as there is on women these days. Why should I be made to feel I have to apologize for my existence? Maybe it’s my brain chemistry. Maybe that’s what’s wrong with me. Bad chemistry. All my problems and anxiety can be reduced to a chemical imbalance or some kind of misfiring synapses. I need to get help for that. But I’ll still be ugly though. Nothing’s gonna change that.
from the film Adaptation.
- eu sei que vou. insisto na caminhada. o que não dá é pra ficar parado. se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. e refaço. colo. pinto e bordo. porque a força de dentro é maior. maior que todo mal que existe no mundo. maior que todos os ventos contrários. é maior porque é do bem. e nisso, sim, acredito até o fim. o destino da felicidade, me foi traçado no berço.
C.F.A
09.01.2012. um ano de brasília. resistindo a cada dia como se fosse o único. até esse momento, eu não tinha me dado conta de como consegui chegar aqui olhando só para dentro. o espelho não me deixou enganar, fui sentindo um por um - os efeitos desse caminho incerto que escolhi por conta própria. teve uma hora que o meu coracão quis até parar, mas não parou. nem sei se foi por pouco, só sei que foi passando. e aprendi um bocado desde então. hoje compreendo que nada que é bom vem fácil. é preciso sangrar ou quase lá. a vida sempre quer muito da gente, pra mostrar que merece, pra ver se não é vencido, pra rimar até afogar. então o jeito é seguir em frente: mais forte, menos inocente, mais inteiro e com boas frases em mãos em caso de desespero.
2011 foi para mim o melhor ano de todos. começou com um medo tímido, aquela incerteza sobre as novas escolhas e uma dificuldade nada habitual. posso dizer que fui superando um por um, às vezes com temor, outras não. mas fui encarando as coisas com o peito aberto, sabe? e funcionou. quer dizer, ainda está funcionando. acho que a coisa mais fantástica no amadurecimento é colher os frutos lentamente, sentir o sabor de cada um sem se desesperar. é essa a ideia: "nada deve ser esperado, e nem desesperado", e assim a gente continua. mesmo com tanto revés, com o tempo a gente aprende a bater de frente.
fico imensamente desapontada com essa corrida contra o tempo. quanto mais eu leio, mais me falta. a vida passa, e eu fico com a sensação de que há muita coisa para ser acrescentada, somada e diluída. tenho sim essa necessidade de querer saber de tudo, não no sentido pedante da coisa, mas de possibilitar aos meus olhos experiências novas. e é aí que me vem o estranhamento: eu, senhora de mim, sempre me orgulhei do esforço em entender o outro, mas em certos assuntos a intolerância ainda sobrevive, mesmo sob o peso da vergonha. me pergunto mil vezes e não entendo: como pode existir aqueles acostumados e confortáveis à inércia? duvido que compartilhamos o mesmo mundo.
tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. de vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. passa logo. como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora "H" nado com desenvoltura. guardo sabedorias no almoxarifado.
Adélia Prado
acredite quando digo que não quero que vá embora. faça um movimento brusco e venha à tona como se voltasse para mim. não tive coragem de dizer, ou simplesmente achei desnecessário, mas carrego comigo um medo tímido de infância: não consigo suportar a ideia de ficar sozinha. imagine só, boy. sei que não deveria assumir assim, me arrepio só em pensar na possibilidade de. não quero ser piegas, mas não existe outra verdade, acho que te vejo mais fundo e além do que você me vê. depois explicarei, é que estou pela metade e me perdendo a cada traço que faço em minha pele vazia. o certo seria você me amar e disso estou certa. eu não careço tanta indiferença. quando iniciar novembro estará tudo acabado, mas por enquanto ainda sinto suas vibrações dentro de mim e estremeço.
"o meu amor é sexualmente transmissível". não sei porque diabos repetia essa frase. era tão literário querer se afundar em tanto sentimento. estar apaixonada, mesmo não sabendo bem ao certo como é estar envolvida. essa era a sensação do mês, e não foi preciso ler o oráculo. estava nas mamas. acredito eu que por todo o resto do corpo. sensualmente derramada, naturalmente lasciva. no entanto, profundamente solitária e cada vez mais convicta que o poço é fundo - assim como o caminho à frente é longo. me avisaram de antemão. meu corpo já sentia os primeiros sinais de cansaço. entre uma ovulação e outra não foi difícil perceber que tudo isso é um terrível esforço para mim.
Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.
Caio F.
estou sempre torcendo por finais felizes, por pura inocência ou por motivos particulares em mim. aquele filete de esperança ganhou proporções maiores, hoje o vejo muito mais real e palpável que há quatro anos atrás. e isso não tem nada a ver com fé, bem sei, é uma escolha. escolha de quem decidiu encarar as coisas da forma mais simplificada possível. acontece que, entre a possibilidade do eterno e incansável questionamento, eu abro o peito. um dia a estagnação tinha que ser superada mesmo.
(...) Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem.Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro. Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem. Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como “estou confuso”. Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. (…)
Fabrício Carpinejar
eu realmente tenho ficado muito puta ao ver a minha capacidade de amar sendo esnobada por aí. de qualquer forma, eu poderia ter te amado muito e isso deveria significar alguma coisa. loucura total, eu sei. quando foi que eu me desequilibrei? acontece, meu caríssimo, que as emoções exigem um pouco mais desta pessoa que vos fala e é uma tarefa árdua tentar entendê-las. não há sentido algum até que um corpo toque pra valer o outro, tu sabes e não abaixe a cabeça quando eu digo. acho que vou começar a ouvir os outros, tentar uma nova forma de terapia. vou fazer com que os diagnósticos vagabundos pareçam corretos e a cada semana terei um novo sintoma. saberão mais sobre mim do que eu jamais sequer poderia imaginar. qualquer que seja meu problema, talvez o que eu realmente precise é viver uma emoção.pois já se passaram dois anos, dois anos, meu caro, e eu continuo com o mesmo pedaço de merda.
estou procurando um sentido pra essa dispersão toda. busco na memória as pontas dos fatos e o que encontro são as minhas projeções cotidianas. estou cada vez mais certa que existiu, nos últimos tempos, muita força de vontade contida em mim. mas como resposta a espera, me conformo com os fatos que são postos a minha frente. é impossível arrumar a casa do capeta. digo em bom tom que cansei. abre-se em meu peito um lugar para o desafeto, desamor, desconsolo, desapego . instale-se aqui.
meu estômago grita e não é de fome. fico pensando quando é que as coisas começaram a ser assim, qual foi a minha contribuição para que tudo ficasse tão suspenso? sofro e consinto. e quase que automaticamente risco mais um dia do calendário. me sinto impotente perante o tempo, nada posso fazer além de senti-lo penetrar em meu corpo. por isso prometo pouco e cumpro menos ainda. tenho dó. de mim mesma. por ser imensamente desajustada. costuro os botões do vestido, tiro a poeira dos móveis, organizo a pilha de livros, dobro as roupas, coloco o chá para esfriar, assisto o jornal, leio alguma coisa sobre a pátria amada, me distraio com a abelha que não sabe se passa para este ou aquele lado da janela, conto até cem e nem assim essa sensação passa. por quê?
- a última vez que me atirei em um precipício nem faz tanto tempo assim. meu coração disse “vá” minha cabeça berrou “de novo, não” e meus lábios em silêncio ficaram, que nestas horas, lábios não são bons conselheiros, sabem disso e, ao contrário de mim, respeitam as próprias falhas, fragilidades e medos. aí pulei. estou a cair desde então. pelo caminho encontro amigos, conhecidos, esbarro em um pouco de música, uma pilha de livros, um prato de sonhos. não temo a queda final, gosto do vento batendo no meu rosto e amestrando meus cachos. temo apenas a minha voz. mas só às vezes. e tu?
cris lisboa.
eu não sei lidar com a falta. sorte tua que existe sozinho e independe do calor do outro. tenho contado as vantagens e até agora não há um sopro ao meu favor. digo que acho isso um tanto incrível e vou arrancando sutilmente com os dentes o esmalte que me resta nas pontas dos dedos, enquanto lá de cima você me encara com tamanha maestria. gosto de pensar que eu era suave assim , que aqui existia algo de bom, que esses dias de cão só fazem parte de uma fase e que no fim das contas tudo tende voltar ao normal. novos dias virão, eles me dizem, mas é como se o tempo tivesse passado rápido demais sobre mim. e sem dó. hoje recuso-me a acreditar. coloco a água no bule e remeto-me às frases de mamãe, às vezes uma gota se divide em duas e essas duas deslizam todo um caminho para se reencontrar somente no final. meio cabisbaixa começo a rir sozinha. entendo que por medida de proteção ela não terminou o óbvio, por tantas vezes essas mesmas gotas simplesmente vão para o ralo, simples assim, ela diria, e sem delongas.
há de se conformar,
meu amor
uma obra do destino
e o reflexo no espelho: para que não me deixe nunca mais.
à vezes penso o que teria acontecido comigo se aquilo que chamo de minha vida tivesse tomado outro rumo, talvez eu nem estaria aqui, talvez eu não me resumiria a isso. eu nunca tocarei a outra margem, mas carregarei o peso dos seus olhos sobre mim quando as coisas complicarem, e isso, talvez, é o que dói mais. por essa razão estou aqui , em teste.
pouco me importa os cães lá fora
eu não espero nada de ser tudo a cada dia e sempre
(e já não me resta muita coisa a fazer)
o depois foi bem simples. ele me envolveu em seus braços - tão firmes, tão fortes - e ficamos ali atados, paralisados, quase sem nenhuma dormência. apenas dividindo o mesmo teto branco e imaginando o momento certo de invadir o silêncio do outro. foi quando uma sensação me saltou ao peito e, de repente, eu achei tudo aquilo muito engraçado. quer dizer, cada momento é único, cara.
eu o amaria. eu me apaixonaria sem medo da entrega, faria planos para dois e pensaria muito nessa minha instabilidade física. acordaria mais cedo só para ver um fio de luz passar pela fresta da janela e refletir no rosto dele. prepararia o café para dois pela primeira vez em minha vida e o acordaria com o meu melhor sorriso. eu enfrentaria o cotidiano com menos reclamações, mas ainda assim contaria as horas para o pôr do sol chegar, e quando este chegasse, eu me sentiria imensamente feliz por voltar pra casa e assistir o jornal nacional. eu voltaria a acreditar no poder milagroso das coisas simples e finalmente a minha insônia encontraria um canto de conforto. eu o assistiria dormir todas as noites e agradeceria em orações por aquela dose de amor que me foi reservada. eu o amaria, se ele deixasse.




